Noite dos Museus
Esta noite, centenas de espaços culturais abrem as portas em Buenos Aires de forma gratuita
Edição 11
Hoje é uma noite especial aqui em Buenos Aires: a Noche de los Museos, ou, em português, Noite dos Museus.
A Noche de los Museos é um programa cultural bem legal da prefeitura da cidade, que acontece no segundo sábado de novembro, todos os anos. Este ano já é a vigésima primeira edição. Trata-se de um evento em que centenas de museus e outros espaços abrem as portas, totalmente grátis, das 19h às 2h. Em 2025, são mais de 300 lugares disponíveis para visitação.
Além da entrada gratuita aos espaços, o transporte também tem custo zero, o que termina sendo um incentivo adicional para que a população aproveite o evento.
E é realmente um sucesso. As ruas ficam parecendo formigueiros, com gente pra lá e pra cá, os ônibus e metrôs lotam como em horário de pico, tem trânsito, filas em todo canto. Também move a economia, porque em algum momento os visitantes param pra jantar e os restaurantes e pizzarias enchem.
Justamente por ser um evento tão massivo, é preciso se planejar. Como as filas são imensas, é melhor já ir se enfiando na primeira às 18h. Também é bom sair de casa sabendo o que visitar para não perder tempo desnecessariamente. Se bem que, às vezes, entre um lugar e outro a gente descobre espaços que nunca tinha visto e os planos mudam. Teve uma vez que encontrei, sem querer, um Museu da Dívida Externa Argentina. Super interessante!

Pra quem é turista e tem pouco tempo, qualquer lugar é legal de visitar. Mas pra quem mora na cidade, a dica é aproveitar para visitar lugares que são difíceis de ir em outras oportunidades. Por exemplo, museus cuja entrada é mais cara, museus com horário muito restrito (horário comercial, por exemplo, que pra quem trabalha das 9 às 18h é complicado), locais que raras vezes abrem as portas (por exemplo, edifícios em restauração) ou eventos que nunca acontecem (andar de metrô em trens antigos, que já não circulam mais).
E digo isso porque, por exemplo, já fiz fila de três horas para entrar ao Congresso Nacional, para fazer uma visita express e sem muito tempo para fotos (pela quantidade de gente, costuma ser assim), e depois descobri que há visitação gratuita todos os fins de semana, sem filas, com disponibilidade imediata e visita guiada de uma hora.
A quantidade de gente e os longos tempos de espera são os pontos negativos, mas vale a experiência, vou quase todos os anos e sempre acho o saldo bem positivo! Sem falar que sempre fico fascinado quando as pessoas ocupam ruas, aproveitam as cidades. Porque assim devem ser feitas as cidades: feitas para as pessoas, que é algo que admiro bastante em Buenos Aires e um dos principais motivos por eu morar aqui.

¿Qué está pasando?
Desde maio não escrevo por aqui e obviamente aconteceu de tudo num país tão grande e agitado como a Argentina. Mas os três assuntos que mais tiveram destaques foram políticos:
Cristina presa. A ex-presidenta da Argentina (2007-2015) foi condenada a seis anos de prisão e inabilitação perpétua para exercer cargos públicos, sob a acusação do crime de administração fraudulenta em prejuízo da administração pública. A Justiça argumenta que durante seus mandatos houve um esquema de favorecimento ilícito e direcionamento de 51 obras públicas na província de Santa Cruz a um empresário amigo da família, resultando em sobrepreços e prejuízos ao Estado. Por ter mais de 70 anos de idade, Cristina cumpre prisão domiciliar.
Para grupos da direita e parte da sociedade, a condenação é vista como sinal de fim da impunidade, justa e exemplar, de que todos são iguais perante à lei e uma clara mensagem de combate à corrupção, impedindo que figuras corruptas voltem ao poder. Já grupos de esquerda rejeitam veementemente a condenação, qualificando como law fare (perseguição judicial). Argumentam que o processo é uma perseguição política, judicial e midiática orquestrada por seus adversários, com o objetivo de proscrição política e de impedir o exercício de liderança popular. Também reforçam a suposta parcialidade dos juízes e promotores, que teriam laços com o governo opositor de Mauricio Macri, e no uso de provas insuficientes ou mesmo manipuladas. De forma muito simplificada, para que o leitor do Brasil entenda melhor: o caso tem muitas semelhanças com a prisão de Lula. Tirem suas próprias conclusões.
Corrupção no governo. Dois casos envolvendo funcionários do governo foram destaque nos últimos meses. O primeiro foi o vazamento de áudios que indicavam o envolvimento de Karina Milei (irmã do presidente e Secretária Geral da Presidência) em um esquema de desvio e superfaturamento de contratos (como compra de medicamentos). A denúncia fala em retornos ilegais para beneficiar uma drogaria específica.
O segundo caso é relacionado ao deputado José Luis Espert, que foi publicamente ligado a um empresário preso em 2021 com pedido de extradição dos EUA por narcotráfico e lavagem de dinheiro. Relatos indicam que o empresário foi um dos principais financiadores da campanha presidencial de Espert em 2019, chegando a emprestar um avião privado e uma caminhonete blindada. Os casos estão sendo investigados.
Eleições legislativas. Em algum momento farei um post sobre como funcionam as eleições na Argentina. Diferentemente do Brasil, que acontecem em todo o país em uma mesma data, aqui as cidades e Províncias (Estados) fazem a eleição quando quiserem, dentro do ano eleitoral.
Este ano tivemos eleições legislativas, que serviram como termômetro para medir a popularidade do governo. O foco esteve mais nas eleições da cidade de Buenos Aires, da província de Buenos Aires e as nacionais. No caso da cidade de Buenos Aires, em julho, o partido de Milei ganhou, mas a centro-esquerda (peronismo) fez a melhor eleição em duas décadas. No caso da província, em setembro, surpresa: esperava-se cenário acirrado, mas o peronismo ganhou por mais de 15 pontos de diferença.
No caso das eleições nacionais, em outubro, nova surpresa: novamente se esperava resultado apertado, mas o governo de Milei ganhou com uma margem de seis pontos de diferença. Alguns números chamaram a atenção, por exemplo, por ter ganhado (ainda que por menos de 30 mil votos), na província de Buenos Aires, onde havia perdido por muito como comentei algumas linhas antes, sem nenhuma mudança drástica no cenário macroeconômico e político. O resultado aprofundou a crise e divisão dentro do peronismo.
Até a próxima!



Socorro, não sabia que tinha um museu da dívida externa. Quando for aí, quero visitar